sexta-feira, dezembro 02, 2016

"Não é um ideal imaginário"

Durante anos, os angolanos, tal como outros países da região e até do mundo, tiveram Mo- çambique como um exemplo, sobretudo, em termos de reconciliação e tolerância política. Que imagem se tem hoje de Moçambique em Angola, um Moçambique hoje em crise, em guerra e com assassinatos que se confundem com expedientes políticos?
João José da Cruz : Não posso falar da imagem que Angola e que os angolanos têm sobre Moçambique, mas na minha perspectiva, sempre olhei Moçambique com agrado e, nas quatro semanas que estou aqui, deu para perceber que Moçambique, nos padrões internacionais, não é um grande país, precisa de avan- çar muito, mas tem coisas muito melhores que nós. E foi bom ver o que está sendo feito aqui. Mas estando aqui e apercebendo-me por intermédio de conversa com várias pessoas, falam de clara regressão, inclusivamente, na sua cultura política e na relação com os doadores e com a comunidade internacional.
Em Setembro último, Rafael Marques, em entrevista ao SAVANA, aconselhava os moçambicanos a não caírem na solução angolana no que toca ao conflito político-militar que o país vive. Argumentava Marques que o modelo angolano de extravagância gera depois problemas muito sérios no futuro. Qual é a sua receita para os moçambicanos?
Eu não me dirijo, propriamente, aos políticos, aqueles que têm, na verdade, a faca, o queijo e o pão, aqueles que decidem sobre o futuro do povo moçambicano, mas eu dirijo-me àqueles que estão na posição de cidadãos e que procuram exercer a sua cidadania como eu e que muitas vezes também têm capacidade de influenciar a decisão daqueles que têm cargos de responsabilidade pública. O que eu posso avançar, efectivamente, é que as pessoas estejam suficientemente atentas para que não venham a perder o mínimo de liberdade que já foi conquistada e continuem a lutar para que se possa aprofundar esse leque de liberdades que é necessário para que Moçambique possa no futuro ter uma democracia, de facto e, por outro lado, enquanto, um pacifista se a solução Angolana foi uma solução bélica e eticamente incorrecta, como é óbvio, não posso propor o mesmo caminho. É necessário que Moçambique opte exactamente por um caminho que não seja o de Angola e, nesse sentido, subscrevo total e absolutamente o argumento de Rafael Marques e se falou sobre extravagância, seguramente, que ele estava a apelar a sermos mais comedidos e humildes e não partirmos para o despesismo desnecessário do ponto de vista financeiro e não falar de exibicionismo que é algo dominante no contexto de Angola: a arrogância, a opulência, o pensar que a moral não vale nada e que podem pisar tudo e todos por causa do dinheiro dos petró- leos e diamantes quando, na verdade, os países que se organizam e que são respeitados no mundo muitos nem sequer têm petróleos, nem diamantes, mas valem pelo grau de criatividade, pela capacidade inventiva dos seus povos nas mais variadas áreas e na sua possibilidade de viverem de forma livre e criativa. Equivale a dizer que a angolana foi para todos os efeitos uma solução falhada? Eu não posso falar de uma solução porque o quadro em que nos encontramos hoje revela claramente que não houve uma solução, o que houve foi um grupo que se impôs contra toda a sociedade por intermédio da força e manipulou o medo em toda a sociedade e o medo hoje é usado como uma categoria política e, portanto, não há propriamente uma solução, o que há ali é um recalcamento de toda uma nação que a qualquer altura pode, inevitavelmente, desencadear uma convulsão de grandes proporções. Só há soluções quando se consegue construir sociedades mais ou menos harmoniosas e não foi esse o caso da sociedade angolana. Insiste na tese de ser comedidos e humildes.
Ora, acha essa uma recomendação fácil de acatar para partidos libertadores como Frelimo e MPLA que, de tanto estarem no poder, a todo o custo, até se outorgam donos dos destinos dos seus países?

Resultado de imagem para Domingos João José da CruzComo eu disse, não me dirijo a esses que gerem cargos de responsabilidade pública, mas eu dirijo-me aos cidadãos, aqueles que estão na posição igual a minha, para não cederem à tentação de atrelarem a essa lógica que adoptaram aqueles que têm cargos de responsabilidade pública porque é ali onde, efectivamente, existe esperança da transformação das nossas sociedades. E quando olho para a sociedade civil africana, são pessoas com um espírito de sacrifício e voluntariado, muitas vezes à custa do deboche, mesmo sendo desprezadas elas continuam a lutar de forma voluntária porque acreditam que estão a fazer o melhor para a sociedade. É para essas pessoas que eu me dirijo porque sei que ali pode haver eco das minhas palavras. Eu não acredito naquela ideia cristã da conversão, não acredito que essas pessoas dentro dessas máquinas hão-de mudar, elas não mudarão e vamos começar a olhar aqui na base onde há pessoas boas que devem ser incentivadas e expandir essa nova cultura política, essa nova forma de exercício da cidadania, se pode dizer que hoje parte da sociedade civil africana, sobretudo jovens, já não está mais disposta a aturar tanta corrupção, tanta desonestidade, tanto descaso e desmando no tratamento do bem público e no tratamento da dignidade humana, é para esses que eu me dirijo. Não é um ideal imaginário, é efectivamente, o que acontece na Noruega, na Austrália, nas Ilhas Maurícias, na Escócia, na Nova Zelândia. Disse, ainda este ano, que a Imprensa pública angolana não é digna desse nome. A nossa pergunta é esta: e uma imprensa pú- blica como a moçambicana, manifestamente, favorável ao partido no poder e desfavorável aos críticos, uma imprensa pública sem espaço para o contraditório, uma imprensa pública cujos profissionais até lêem, publicamente, comunicados do partido no poder em reuniões partidárias, entre outros atropelos de regras básicas do jornalismo, que nome leva? Acho que vocês têm uma resposta clara sobre o nome que se pode efectivamente dar a uma imprensa com esse comportamento.

Pronto!!!

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Já é conhecido o nome do “agente C” que, no processo de aquisição de dois aparelhos Embraer para a Linhas Aéreas de Moçambique serviu de pivot para o encaixe fraudulento de uma comissão choruda no valor de USD 800 mil dólares.  Segundo já escrevemos neste diário o trâmite processual que decorreu no Departamento de Justiça do Estado da Flórida, nos Estados Unidos da América (EUA), se convencionu omitir os nomes concretos da associação criminosa que se beneficiou fraudulentamente de quase um milhão de dólares americanos. Neste processo judicial, a Embraer sentiu-se obrigada a pagar uma multa na ordem de 206 milhões de dólares para encerrar acusações envolvendo o pagamento de propina, não só em Moçambique, mas também na República Dominicana, Arábia Saudita e Índia.Portanto, nesta tramitação judicial não são citados os nomes dos executivos moçambicanos que assinaram os contra­tos e participaram em todo o esquema da negociação do pagamento das luvas. Não citando os nomes dos executivos, a tramitação processual da justiça americana fala, igualmente do Agente C, entidade que assumiu o papel de criar condições para que a Embraer pagasse os 800 mil dólares de luvas, a ordem de 400 por cada avião E-190.
Resultado de imagem para embraer LAm no brasilEntretanto, o mediaFAX conseguiu ter acesso a cópia do termo de compromis­so e de ajustamento de conduta assumido e subscrito entre o Ministério Público Federal do Brasil, a Comissão dos Valores Mobiliários e ainda a empresa acusada, a Embraer. O documento, datado de 6 de Outubro do corrente ano, não fala de “Agente C” que recebeu os 800 mil dólares para posterior distribuição pelos membros da “associação criminosa”. Fala, isso sim, de Mateus Lisboa Gentil Zimba.
Mateus Zimba, actual executivo da General Electric Oil & Gás em Moçambi­que, tendo como área de operação a África Austral e Oriental, foi por cerca de 20 anos representante executivo da petroquímica sul-africana Sasol, em Moçambique.
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No processo das luvas, Mateus Zimba terá sido contactado por executivos da LAM para entrar na qualidade de consultor no negócio. O único nome do executivo da LAM citado nos documentos é o do Eng. José Viegas que, à altura do negócio, assu­mia a pasta de Presidente do Conselho de Administração, com funções executivas.
Os detalhes do documento indicam várias trocas de emails entre Mateus Zimba e os executivos da Embraer. No processo, os executivos da Embraer aconselham a Mateus Zimba a criar uma empresa para a drenagem dos valores, chamando atenção para a necessidade de a empresa não estar sediada num paraÍso fiscal. Nisto, os executivos da Embraer deram todas as indicações e os mecanis­mos procedimentais no sentido de Mateus Zimba criar uma empresa de fachada em São Tomé e Príncipe.
E pronto, tal e qual. Assim aconte­ceu. Mateus Zimba iniciou o processo e em poucos dias do ano 2008 conseguiu criar a Xihivele, Consultoria e Serviços Ltda, sedeada em São Tomé e Principe.
No processo negocial sobre as quan­tias para o pagamento de luvas, depois de muita discussão, Mateus Zimba chegou a acordo com os executivos da Embraer para o pagamento de 50 mil dólares por cada avião. Entretanto, quando Zimba encaminha o assunto para o executivo da LAM citado nos documentos, no caso José Viegas, este mostra-se revoltado e ofendido pela “pre­cariedade” da oferta da Embraer. 
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Em troca de emails, José Viegas terá mesmo chegado a considerar que a oferta de 50 mil dólares por cada avião era um autêntico insulto.É assim que Viegas entra directamente na negociação do valor das luvas e dias depois foi acordado o pagamento de 800 mil dólares para os dois aviões.Fechada a questão da negociação das luvas, os contratos de venda de dois apare­lhos foram assinados a 15 de Setembro de 2008, tendo José Viegas sido um dos três executivos da LAM a assinar o contrato de compra e venda, ao valor de 32.69 milhões de dólares cada.A partir daqui, o resto só foi mesmo uma questão de se fazer a entrega dos aviões e depois disso correr o processo do pagamento de luvas. Nisto, Mateus Zimba apresentou, à Embraer, duas facturas de pagamento, no valor de 400 mil dólares cada. A primeira tem a data de 15 de Agosto de 2008 e a segunda com a data de 24 de Setembro do mesmo ano.
Resultado de imagem para Eduardo Munhos de CamposEduardo Mundos de Campos assinou e aprovou ambas as facturas para o respec­tivo pagamento em resultado do trabalho da suposta consultoria providenciada pela verdade, a empresa de Mateus Zimba nunca chegou a fazer qualquer trabalho de consultoria no processo, tendo sido criada unicamente para a recepção dos 800 mil.Aliás, o contrato de representa­ção comercial assinado entre a Xihi­vele e a Embraer só foi assinado a 22 de Abril de 2009, sete meses após a assinatura do contrato de compra e venda entre a LAM e a Embraer. O primeiro pagamento da Embraer à empresa de Mateus Zimba aconteceu a 31 de Agosto de 2008, a partir da conta da fabricante brasileira no Citibank dos Estados Unidos da América. O valor foi transferido para uma conta no Banco Internacional de São Tomé e Príncipe, para crédito em uma conta na Caixa Geral de Depósitos em Portugal, de que era titular a empresa de Mateus Zimba. Já a 2 de Outubro de 2009, a Embraer transferiu mais 400 mil dólares da sua conta para a conta em Portugal de Mateus Zimba.(mediaFAX)




quarta-feira, novembro 30, 2016

"Há que construir uma ética de valores"

Seu nome completo é Domingos João José da Cruz. Diz que sofre perseguições do regime angolano desde 2008, mas foi entre 2015 e 2016 que se tornou mediático, quando o Ministério Público (MP) daquele país o declarou como líder do grupo dos 17 activistas acusados por crimes de rebelião, tentativa de golpe de Estado e associação de malfeitores. Escritor, jornalista, professor de filosofia, mestre em Ciências Jurídicas na especialidade Direitos Humanos e activista, Domingos da Cruz, que está em Mo- çambique pela primeira vez, acredita que uma nova Angola só é possível sem José Eduardo dos Santos no poder. Embora entenda que Moçambique esteja melhor que Angola, o retrato que faz do seu país confunde- -se, em parte, com o nosso, sendo a diferença maior o facto de Angola conhecer apenas um presidente desde o multipartidarismo formal, quando Moçambique já teve quatro, todos do mesmo partido libertador, a Frelimo. Não acredita na ideia cristã da conversão, reiterando que José Eduardo dos Santos e os seus colaboradores directos incorporaram a ética do mal, pelo que só empurrados é que podem sair do poder. Quando questionado da chamada solução angolana como medida para o fim do conflito político-militar em Moçambique, é vigoroso em afirmar que em Angola não houve solução, houve, isso sim, um recalcamento de toda uma nação que a qualquer altura pode desencadear uma convulsão de grandes proporções. Tem uma recomendação aos moçambicanos: “estejam suficientemente atentos para que não venham a perder o mínimo de liberdade que já foi conquistada e continuem a lutar para que se possa aprofundar esse leque de liberdades que é necessário para que Moçambique possa no futuro ter uma democracia, de facto”. Siga o exclusivo ao SAVANA.
Resultado de imagem para Domingos João José da Cruz
Cinco meses depois de ter saído da prisão, juntamente com os outros activistas do chamado “revú”, como é que reconstitui aquele que foi o mais mediatizado caso na história recente de Angola? Prefiro é fazer enquadramento do processo dentro da chamada lógica de um regime autoritário. Angola é, de acordo com vários estudos, um país que não faz grandes progressos no que diz respeito às liberdades e ao grau de cultura política. É nesse contexto em que eu coloco o nosso julgamento que só é possível num Estado autoritário, ali onde efectivamente não existe democracia e onde a cultura dos direitos fundamentais é total e absolutamente desprezada.
De todos os 17 activistas, Domingos da Cruz foi o único que não subscreveu a petição de rejeição da Lei de Amnistia e até aqui os motivos são desconhecidos. Pode dizer, em primeira mão, ao SAVANA porque não assinou a petição? Não gostaria de fazer qualquer comentário sobre isso, por razões puramente intimistas, mas posso dizer que já não estamos em liberdade condicional, agora trata-se de uma liberdade total do ponto de vista jurídico, na medida em que foi inventada por parte do presidente da República, uma amnistia que, embora discutível, foi a solução política que ele encontrou para que pudéssemos recuperar de forma simulada a nossa liberdade e isso só sucedeu gra- ças à aparição da comunidade internacional e local e entre os que pressionaram para que nós pudéssemos sair dos calabouços foi, inevitavelmente, parte da sociedade moçambicana porque sei que os media moçambicanos fizeram do nosso processo um elemento a ní- vel da sua pauta informativa. Por outro lado, houve grupos de músicos de intervenção social e crítica que também realizaram shows em prol da nossa libertação, portanto, eu tenho profunda gratidão por tudo que foi feito também aqui em Moçambique em prol da nossa liberdade.
A base do vosso processo foram reuniões semanais que mantinham em Luanda e a prova usada foi, justamente, um livro de sua autoria, 182 páginas, intitulado “Ferramentas para destruir o ditador e evitar nova ditadura”. Afinal, estavam ou não a concertar “ferramentas para destruir o ditador e evitar nova ditadura”? Nós não estávamos a concertar, as ferramentas já existem. O que eu fiz foi a adaptação do pensamento filosófico norte-americano para o contexto cultural, económico e político, digamos angolanizar as famosas 183 técnicas de luta não violenta. Na verdade, nós encontramo-nos num contexto de tirania, de uma ditadura brutal e completamente, intolerante. Se tivermos de fazer uma análise comparativa entre Angola e Moçambique, a falta de liberdade de expressão e de imprensa inviabiliza inclusive a criação de projectos na área da comunicação. Exemplo, Moçambique tem pelo menos 50 rádios comunitárias, de acordo com estatísticas do FORCOM, e Angola não tem absolutamente nenhuma. Faço referência a essa dimensão comunicativa porque é um requisito fundamental para que se possa dar passos na construção de uma democracia. Ora, quando você vive numa atmosfera de tirania, deve, necessariamente, resistir, criar estraté- gias, métodos de luta para que se possa construir uma sociedade livre, para que se possa criar um ambiente em que as pessoas consigam viver, de facto, com um mínimo de dignidade e a dignidade pressupõe que haja democracia, o que não temos. De acordo com a filosofia da luta não violenta, no âmbito da filosofia política, os povos, aqueles que são os donos originários do poder, têm o direito de destituir aquele para o qual confiam um cargo de responsabilidade pública, desde que ele não responda aos anseios do povo. Então, é nesse quadro de absolutismo e tirania que ousei apresentar essa proposta, não para dar um golpe tal como eles fizeram questão de sustentar nos instrumentos mediá- ticos de manipulação, mas sim propor Angolano Domingos da Cruz em discurso aos moçambicanos caminhos democráticos como é o caso da luta não violenta para se sair da situação em que nos encontramos.
E como foi receber uma acusação de tentativa de golpe de Estado, quando, como diz Domingos, tudo quanto faziam era sugerir propostas democráticas e não violentas como, aliás, ontem, o fizeram Mahatma Gandi, Martin Luther King ou Nelson Mandela? Quanto a mim não me surpreendeu absolutamente porque tenho plena consciência de que no contexto de Angola, num contexto de ditadura, é absolutamente normal que se tire a vida às pessoas que pensem diferente, que ousem exercer a sua liberdade, essa dimensão fundamental da pessoa humana. Não me surpreendeu de forma alguma e sempre esperei que em algum momento pudesse suceder o pior, a única coisa que fazia era tentar manter a serenidade e suportar o sofrimento com esperança de que em algum momento a situação de cárcere podia passar; é óbvio que me refiro ao cárcere físico porque do ponto de vista espiritual, sou uma pessoa livre mesmo na prisão procurei manter essa liberdade interior.
Resultado de imagem para Domingos João José da CruzA pergunta seguinte é redundante, mas pertinente: porquê, efectivamente, considera Angola uma ditadura? A razão é bastante simples. Angola é uma ditadura porque do ponto de vista da sua cultura política, da forma como o poder político é exercido e não só, demonstra claramente que não é uma democracia. É óbvio que temos instituições puramente formais, temos normas, muitas delas que demonstram como se Angola fosse democracia, mas felizmente a chamada filosofia neomarxista, a filosofia crítica, permite-nos perceber que não se pode confundir o formalismo jurídico com a realidade, uma coisa é o texto, outra coisa é a concretização do texto no plano prático. Por outro lado, Maquiavel também dizia que um regime político não se pode avaliar pelo seu texto constitucional, mas avalia-se pelas práticas, pela forma como se estabelece a rela- ção entre aqueles que detêm o poder e os cidadãos. Posto isto, gostaria então de avançar alguns exemplos concretos: numa democracia deve haver um sistema eleitoral independente, deve haver respeito pelas minorias, sejam elas étnicas, raciais, os grupos vulneráveis devem ser integrados e as maiorias não se devem arrogar a conduzir os destinos de um país sem olhar para o dissenso, sem olhar para deliberação pública como o elemento fundamental de uma democracia. Por outro lado, uma democracia tem de ter um sistema judicial independente, deve haver alternância de poder, as vozes críticas não podem ser perseguidas ou inviabilizadas de ascender na escala económica e social. Numa democracia tem de haver liberdade académica e científica. Duma forma sintética, só se pode falar de democracia quando, de facto, o edifício dos direitos humanos é concretizado ou há vontade para o fazer e que, em última instância, tudo deve se submeter à dignidade humana, o que efectivamente não acontece em Angola, onde a pessoa humana não tem valor absolutamente nenhum diante daqueles que detêm o poder político, o sistema judicial não é independente, não há imprensa livre, está sob tutela do poder, com excepção de alguns órgãos que se colocam numa posição de resistência, a chamada imprensa alternativa e, por outro lado, não há transparência na gestão da coisa pública e as pessoas não são responsabilizadas. Não pode haver democracia quando não há liberdade económica e quando as instituições financeiras também estão sob tutela do poder político, daqueles que apoiam o grupo hegemó- nico, quando há oligopólios. Em Angola, as empresas de grande dimensão estão sob responsabilidade de políticos que drenaram recursos públicos, como generais, ministros, o presidente e sua família e tudo isso demonstra que Angola não é uma democracia.
E o preço a pagar é alto para quem ousa questionar esse status quo? Eu diria que é incomensurável porque alto pressupõe estabelecermos um limite. É incomensurável porque você pode perder a vida e a vida não tem preço e o que digo não é nada ficcional, efectivamente, acontece, muitos perderam a vida em nome da liberdade e da democracia.
Resultado de imagem para Domingos João José da CruzCom que sabor, então, celebraram, no último dia 11, os 41 anos da independência angolana? Eu não celebro a independência. Angola não é independente, ainda precisa dessa independência. Tenho um amigo, um grande activista, chama-se Luís Araújo, alguém de grande luta pela dignidade dos angolanos, pela democracia, segundo ele, o que sucede hoje é exactamente a endolonização, ou seja, trocou-se a colonização do colono europeu para um outro colono que é endógeno e eu subscrevo total e absolutamente a sua tese e, em muitos sectores da sociedade angolana, de acordo “Estejam atentos para não perderem o mínimo de liberdade que já foi conquistado” com análises feitas, nós temos situações mais gravosas do que o que terá sucedido na época colonial. Não quero de modo nenhum dizer que a colonização é algo bom, mas muitas análises comparativas levam a concluir que havia sectores que eram muito melhores do que nos encontramos hoje.
Como académico, escritor, jornalista, consegue identificar a raiz do problema em Angola? Essa questão é de grande profundidade e ao mesmo tempo complexa pelo que não me arrogaria a apresentar uma perspectiva acabada. Com sinceridade e honestidade, para mim, há um elemento que é importante analisar: o factor histórico. Nós temos uma história em que a violência estrutural marcou o nosso percurso. Angola é marcada por violência colonial, violência pós-colonial, o que significa que a violência institucional está demasiada enraizada e é profunda, o que inviabiliza a possibilidade de as pessoas terem capacidade de olhar para a dignidade humana como um bem supremo, como o valor maior, mas essa banalização da dignidade da pessoa humana é consequência duma banalização anterior que é uma banalização do mal. Quando as pessoas já não se chocam com o mal, com o sofrimento porque vivem um ciclo importante de sofrimento, isso leva a que as pessoas ajam da maneira que bem quiserem e isso repercute-se no plano político e institucional. Essas pessoas são profundamente destruídas do ponto de vista ético, moral, não têm capacidade de distinguir o público do privado, não têm capacidade de colocar-se no lugar doutro quando o outro está numa situação de carência, de sofrimento, de vulnerabilidade e é muito perigoso quando essas pessoas assumem cargos de responsabilidade pública porque têm de decidir os destinos de um país e isso destrói todo um povo, aprofunda o sofrimento. Ora, tendo evocado o argumento histórico, acho que há um outro que é fundamental, que é aquilo que eu chamo de variável político. Durante todo o nosso percurso histórico, os chefes que assumiram os cargos de responsabilidade pública, fizeram-no sempre numa lógica centralizada. No período colonial, aquele que tinha cargo de responsabilidade era centralizado e o Estado pós-colonial repetiu o centralismo colonial e, a partir de 1991/92, fez-se um simulacro de instituições democráticas, mas infelizmente não alterou a centralização do poder e manter-se demasiado tempo num cargo gera vícios que faz com que as pessoas confundam bens públicos e privados.
 Está a falar do presidente José Eduardo dos Santos, no poder há 37 anos? Claro. Falo dele e dos colaboradores próximos, mas, por outro lado, também há uma certa cumplicidade do povo angolano, mas é uma cumplicidade que podemos chamá-la de inculposa, no sentido de que as pessoas têm uma responsabilidade parcial porque é um povo que vem sendo humilhando durante décadas e não é capaz de reagir, mas só não reage por mérito da pró- pria ditadura que isolou as pessoas e fez com que as elas deixassem de acreditar na capacidade de criar redes articuladas, fez com que as pessoas deixassem de ser capazes de perceber que a unidade levar-nos-ia a uma libertação colectiva. A tirania promoveu a cultura do isolacionismo em que cada um está preocupado com aquilo que é básico e essencial na escala das necessidades do ponto de vista humano, mas, como eu disse, a questão colocada é uma grande profundidade, muito inteligente e parece-me que levar-nos-ia a elaborar uma tese. Agora, todo esse percurso e esses factores sobre os quais acabei de fazer referência estão combinados neles vários e múltiplos factores. Aqui a Igreja joga um papel fundamental para manter a ditadura, porque a Igreja em Angola é um parceiro do Estado; a falta de oposição no país também inviabiliza o encorajamento do povo para que se possa desencadear uma mudança epocal no contexto de Angola, para não falar do grau de manipulação que se faz da comunicação social. Aliás, falando da comunicação social e como ela manipula, há uma categoria importante a ser analisada que é o medo. O medo é uma categoria instrumentalizada e se pode dizer que hoje o medo é transversal aos angolanos desde a esfera privada à esfera pública, o medo é recorrentemente manipulado a favor do grupo opressor com vista à manutenção do poder.
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Acredita que uma nova Angola só é possível sem o actual presidente do país? Sim, sem ele no sentido de estar fora do cenário político, sem ele não digo desaparecer do mundo, de forma nenhuma. Sem ele, no sentido de afastado de qualquer cargo de responsabilidade pública. Eu afirmei, recentemente, numa entrevista concedida a um jornal português, que José Eduardo dos Santos incorporou a ética do mal e permita-me esclarecer porque provavelmente se dizia que se é ética tem de ser algo bom. Não, a ética do mal tem que ver com uma análise que se faz sobre como aqueles grupos que agem de forma errante construíram também códigos que para eles são éticos. Quem já assistiu filmes que retratam a máfia chinesa, japonesa ou italiana, há- -de perceber que existe também lá um código de honra, um código de ética dentro da máfia, ou seja, apesar de eles serem criminosos, existem determinadas atitudes que configuram uma moralidade dentro desse grupo criminoso, então, Eduardo dos Santos construiu uma ética criminosa, aquilo que chamo a ética do mal e essa ética é partilhada por esse grupo, mas eles fazem um esforço, usando da comunicação social, para que essa ética do mal, essa ética criminosa, seja expandida para a sociedade para que ninguém tenha autoridade moral e eles entendem que todos nós devemos entrar na mesma lógica e agir do mesmo jeito que, do ponto de vista de uma pessoa normal, é imoral, para eles é moral e é exactamente essa cultura da ética do mal que eles querem transferir para toda a sociedade.
A 17 de Novembro corrente, o jornal português Expresso noticia que há cada vez mais probabilidades de o presidente José Eduardo dos Santos não se recandidatar nas eleições de 2017. Diz o jornal ter apurado que, na recente reunião do partido, dos Santos terá reafirmado a intenção de não se recandidatar e, apesar de já não ser a primeira vez que o diz e depois volta atrás, nos círculos políticos há cada vez mais certezas que agora é para valer. Boa notícia ou nem tanto? Eu não levo a sério um homem como Eduardo dos Santos, eu olho isso com muita indiferença e não estou só a afirmar isso ao SAVANA. Um indivíduo que incorporou a ética do mal não é para ser levado a sério. Eduardo dos Santos já fez variadíssimas promessas e quem se deixa mover por esse tipo de pronunciamentos, ele é o único responsável por decepcionar-se no futuro, o que não é o meu caso. Eu não levo a sério este homem.
Afasta, completamente, a possibilidade de uma saída do presidente José Eduardo dos Santos? Ele tem de ser empurrado para fora do poder. Agora, uma decisão tomada por ele, eu não levo a sério pessoas mentirosas, é o caso de Eduardo dos Santos, ele é uma pessoa muito desonesta e uma pessoa que, durante o seu consulado, o seu grupo sob sua tutela, tira a vida de angolanos, vão drenando os recursos, vão saqueando todo o país, não é alguém sério para o qual podemos depositar alguma confiança, sob pena de tu também não seres sério, acreditando num homem como Eduardo dos Santos.